POLIO NA MATURIDADE


Décadas após recuperarem a maior parte de sua força muscular, sobreviventes da Pólio estão reportando inesperadas fadiga, dor e fraqueza. A causa parece ser a degeneração dos neurônios motores.

 
Por Dr. Lauro S. Halstead
Neurônios Motores que controlam os movimentos voluntários dos músculos têm seus corpos celulares na medula espinhal e longos axônio que se estendem para grupos musculares, por exemplo, nos braços. Derivações próximas ao final de cada axônio conectam as células musculares individualmente.

Alguns neurônios motores infectados pelo poliovírus sobrevivem, mas outros morrem, deixando as células musculares paralisadas. Neurônios motores recuperados desenvolvem novas derivações terminais axônicas que reconectam células musculares órfãs. Um único neurônio motor pode lançar derivações para conectar cinco a dez vezes mais músculos do que fazia originalmente, criando uma unidade motora gigante.

A adaptação não é estática: em um processo chamado remodelagem, a unidade motora está constantemente tanto perdendo velhas derivações como criando novas. Após muitos anos de estabilidade funcional, estas idades motoras ampliadas começam a se degenerar, causando nova fraqueza muscular.

Dois tipos de degeneração tem sido constatados. Uma lesão progressiva é produzida quando a regeneração normal das derivações dos axônios não acompanham mais a morte ou o mal funcionamento das derivações nervosas. Uma lesão flutuante ocorre quando há um defeito na síntese ou liberação do neurotransmissor acetilcolina.

No final dos anos 70, apareceram relatos de pessoas que haviam se recuperado da pólio paralítica décadas atrás que estavam desenvolvendo problemas de saúde inesperados como fadiga excessiva, dores nos músculos e nas articulações e, mais alarmante do que tudo, nova fraqueza muscular.

Devido ao fato de que existe pouca referência na literatura médica moderna sobre alterações neurológicas posteriores em sobreviventes da pólio, a resposta inicial de muitos médicos foi que o problema não era real. Por um período eles estiveram lidando com um agrupamento de sintomas que não tinham nome – e sem nome não existia, em essência, uma doença.

Tendo um nome – mesmo que impreciso e enganoso quanto à causa – ao menos confere um elemento de credibilidade. Transparecendo o peso dos números, pessoas experimentando os últimos efeitos da pólio finalmente começaram a atrair a atenção da comunidade médica, e no início dos anos 80 o termo "Síndrome Pós-Pólio" foi cunhado.

Hoje a síndrome é definida como uma desordem neurológica que produz uma série de sintomas em indivíduos que se recuperaram da poliomielite paralítica muitos anos antes. Estes sintomas tipicamente aparecem de 30 a 40 anos após a fase aguda da doença. Os principais problemas são progressiva fraqueza muscular, fadiga debilitante, perda funcional e dor, especialmente nos músculos e nas articulações.

Menos comuns são atrofias musculares, problemas respiratórios, dificuldade de deglutir e intolerância ao frio. De todos esses problemas de saúde, o sintoma crítico da síndrome pós-pólio é uma nova fraqueza progressiva. Os pacientes com maior risco para a síndrome pós-pólio são aqueles que sofreram um severo ataque de poliomielite paralítica, apesar de alguns pacientes que aparentemente tiveram um ataque suave tem também desenvolvido a síndrome.

A instalação desses novos problemas geralmente é traiçoeira, mas em muitos casos eles aparecem ser precipitados por eventos específicos como um pequeno acidente, uma queda, um período de repouso ou cirurgia. Os pacientes coincidentemente dizem que um evento similar anos antes não causaria um declínio tão intenso na saúde e na atividade.

Minha própria experiência parece ser típica tanto na recuperação da pólio paralítica como no desenvolvimento da síndrome pós-pólio. Eu contraí pólio durante a epidemia de 1954 viajando pela Europa após minha juventude no colégio. Eu tinha 18 anos de idade. Minha jornada de seis meses de recuperação tirou-me do pulmão de aço para a cadeira de rodas, aparelhos ortopédicos e então para nenhum equipamento de assistência por completo. Às vezes o fortalecimento parecia acontecer da noite para o dia. Apesar do meu braço direito permanecer paralisado, o resto do meu corpo readquiriu maior parte da força e tenacidade que tinha antes da doença.

Como resultado, eu me considerei curado. Eu voltei ao colégio, aprendi a escrever com a mão esquerda e até mesmo joguei squash. Na manhã do terceiro aniversário de instalação da minha pólio, alcancei o cume do Monte Fuji no Japão após uma escalada de mais de 12.000 pés. Enquanto observava o alvorecer, pensava, "A pólio ficou atrás. Eu finalmente a conquistei." Com a conquista do Monte Fuji fresca na minha memória, comecei a procurar outras montanhas para escalar. Após o colégio, ingressei na escola de Medicina. A residência médica e o internato iniciou ainda outro ciclo de atividade física que durou anos.

Em resumo, retomei minha vida enquanto a pólio retrocedeu como uma lembrança distante na minha memória. Alguns anos atrás comecei a desenvolver uma fraqueza nas pernas. Enquanto a fraqueza progredia, num período de meses, passei de um andarilho em tempo integral que vencia seis lances de escadas por exercício, para ter que usar um aparelho motorizado o tempo todo no trabalho.

DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO

Um conjunto de critérios para o diagnóstico da síndrome pós-pólio tem sido desenvolvido pela Força de Trabalho Pós-Pólio, um grupo de pesquisadores, clínicos e sobreviventes da pólio. O surgimento de nova fraqueza muscular após muitos anos de funcionamento estável é talvez o sintoma mais característico. Contudo, muitos sintomas da síndrome pós-pólio são tão genéricos que relacionar todas as possíveis causas é muitas vezes impraticável. Por exemplo, a nova fraqueza pode resultar simplesmente do pouco uso desses músculos. A fraqueza muscular por desuso pode mascarar a síndrome pós-pólio e complicá-la.

Independentemente da causa fundamental, assim que a debilidade começa, ela pode desencadear uma cascata de outras complicações que tornam impossível identificar o sintoma original. Como em muitas outras condições crônicas, a essência do bom cuidado médico é aliviar os sintomas, recompor as funções musculares e melhorar a sensação de bem-estar do paciente. Esta estratégia administrativa é freqüentemente citada como apoiar e andar. Uma intervenção efetiva pode ser simples como prescrever um par de bengalas ou uma cadeira de rodas, ou complicada como colocar alguém dentro de um pulmão de aço ou providenciar alguma outra forma de ventilação assistida.

Tanto por razões físicas como psicológicas, os pacientes são encorajados a se manter tão ativos quanto possível. O novo estilo de vida, entretanto, deve incorporar intervalos regulares de descanso. Um programa de exercícios é desejável para virtualmente todos pacientes. Para alguns, estes não podem ser nada mais extenuante do que do que alongamentos suaves ou vários tipos de yoga. Para outros, os exercícios podem ser consideravelmente mais vigorosos e mesmo incluir ginástica aeróbica.

Os mais comuns novos problemas de saúde reportados por pacientes pós-pólio em diversos estudos clínicos são fadiga, dores musculares, dores nas articulações e fraqueza. Problemas funcionais incluem andar e subir escadas. Com determinados tipos de exercícios, em sessões cuidadosamente monitoradas, alguns pacientes tem sido capaz de recuperar e manter o vigor muscular. Apesar de não existir fórmulas mágicas, medicamentos podem ocasionalmente ser úteis: por exemplo, baixas doses de um antidepressivo tricíclico pode aliviar a dor muscular em alguns pacientes, e a piridostigmina pode reduzir a fadiga e aumentar a força muscular.

Como regra geral, a progressão dos sintomas é razoavelmente lenta e o prognóstico apesar de tudo é bom, a menos que existam dificuldades respiratórias ou de deglutição. Porém quando as reservas de força e estamina são baixas, uma alteração mínima na estabilidade dos neurônios motores pode resultar em uma perda desproporcional da função muscular, o que é sempre psicologicamente devastador.

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